Casos de raiva em SP reforçam vacinação anual de cães e gatos

28 de Setembro de 2026

Registros em cão no interior e morcegos na capital mostram que o vírus segue circulando e reforçam a importância da vacinação e da vigilância.

Casos recentes de raiva animal registrados no estado de São Paulo reforçam o alerta para uma doença que, apesar dos avanços obtidos no controle da transmissão urbana, continua circulando entre animais silvestres e pode alcançar cães, gatos e seres humanos. Em 2026, ocorrências no interior e na capital paulista voltaram a chamar atenção para a vacinação dos animais domésticos e para os cuidados diante do contato com morcegos.

Em agosto, um caso de raiva foi confirmado em uma cadela de um ano, da raça Pastor Belga Malinois, em São João da Boa Vista, no interior paulista. O animal não estava vacinado e morreu em 7 de agosto depois de apresentar sinais neurológicos e receber atendimento veterinário. A confirmação laboratorial ocorreu após o envio de material ao Instituto Pasteur.

O episódio foi o primeiro registro da doença no município em cerca de 30 anos e levou ao reforço das ações de prevenção. A ocorrência chegou a ser associada a São Carlos em algumas referências por ter sido noticiada pela área de cobertura do g1 São Carlos e Araraquara, mas o caso ocorreu em São João da Boa Vista.

Na capital, outro sinal da circulação do vírus havia sido identificado semanas antes. Um morcego encontrado em 21 de julho no Alto de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, teve diagnóstico positivo para raiva. Naquele momento, a cidade já contabilizava oito morcegos infectados pelo vírus em 2026, com registros em diferentes regiões.

Vírus continua circulando mesmo com controle do ciclo urbano

Os episódios ajudam a mostrar uma característica do cenário epidemiológico atual. A forte redução da circulação das variantes clássicas associadas aos cães domésticos não significa que o vírus da raiva tenha desaparecido. Variantes mantidas por animais silvestres continuam circulando e podem eventualmente infectar animais domésticos.

Segundo dados do Ministério da Saúde atualizados em junho de 2026, cães e gatos permanecem suscetíveis a variantes silvestres, especialmente as associadas a morcegos e outros mamíferos. O comportamento predatório dos gatos pode aumentar a possibilidade de contato com morcegos, inclusive dentro ou nas proximidades das residências.

Até junho de 2026, o Ministério da Saúde havia contabilizado seis casos de raiva em cães no país, todos envolvendo variantes de animais silvestres. Entre 2015 e 2026, foram registrados 270 casos da doença em cães e gatos, dos quais 205 ocorreram em cães domésticos. Nesse conjunto, 75 casos estavam relacionados às variantes típicas de cães, AgV1 ou AgV2.

O Brasil também completou, em 2026, dez anos sem registro de raiva humana transmitida pelas variantes caninas AgV1 e AgV2. De acordo com o Ministério da Saúde, os casos humanos registrados no país entre 2016 e 2026 foram associados a variantes silvestres, com participação principalmente de morcegos, além de primatas não humanos, felinos, raposas, um cão e um bovino infectados por variantes de origem silvestre.

O resultado reflete décadas de vacinação de cães e gatos, vigilância epidemiológica, investigação de casos e controle de focos. Ao mesmo tempo, a permanência do vírus na fauna silvestre impede que a vigilância seja interrompida.

Vacinação protege cães e gatos e reduz risco de transmissão

A vacinação antirrábica de cães e gatos foi uma das principais ferramentas utilizadas para controlar a raiva urbana no Brasil. Dados do Ministério da Saúde mostram uma queda expressiva dos registros da doença em cães ao longo das últimas décadas, paralelamente à ampliação das ações de imunização e vigilância.

Manter a vacinação dos animais domésticos é importante justamente porque o contato com uma variante silvestre pode ocorrer de maneira inesperada. Um morcego pode entrar em uma residência, ser encontrado em um quintal ou tornar-se alvo do comportamento de caça de um gato. Cães também podem ter contato com mamíferos silvestres em áreas urbanas, rurais ou durante passeios.

Por esse motivo, mesmo gatos que vivem exclusivamente dentro de casa não devem ter a vacinação negligenciada. Telas, ausência de acesso à rua e outras medidas de manejo diminuem determinadas exposições, mas não eliminam completamente a possibilidade de contato acidental com morcegos.

Na cidade de São Paulo, a vacinação antirrábica de cães e gatos é oferecida gratuitamente em postos permanentes da rede municipal. A orientação das autoridades sanitárias é manter a imunização dos animais em dia e buscar informações nos serviços locais sobre o esquema indicado.

Filhotes devem iniciar a imunização na idade recomendada para a vacina utilizada e receber os reforços indicados. Animais adultos sem histórico vacinal conhecido ou com vacinação atrasada também precisam ser avaliados para definição da conduta adequada.

Morcegos encontrados em situação incomum não devem ser tocados

Morcegos exercem funções importantes nos ecossistemas e sua presença, por si só, não significa que o animal esteja infectado. A atenção deve aumentar quando um morcego é encontrado caído no chão, morto, dentro de uma residência, incapaz de voar ou apresentando comportamento incomum.

Nessas situações, a recomendação é manter pessoas e animais domésticos afastados e não tentar pegar o morcego com as mãos, transportá-lo ou matá-lo. Na capital paulista, a população pode solicitar a remoção pelo serviço SP156 ou pelo telefone 156, permitindo que equipes responsáveis façam o recolhimento e avaliem a necessidade de encaminhamento para diagnóstico.

Se um cão ou gato tiver contato com um morcego ou outro mamífero silvestre suspeito, o tutor deve evitar manipular diretamente o animal envolvido e procurar orientação veterinária e do serviço de vigilância. A conduta dependerá das características da exposição e do histórico de vacinação do pet.

A confirmação no Alto de Pinheiros também demonstra que a circulação de variantes silvestres não está restrita a áreas rurais. Até o fim de julho, os oito registros positivos em morcegos na cidade de São Paulo estavam distribuídos por áreas atendidas pelas unidades de vigilância de Santa Cecília, Capela do Socorro, Guaianases, Santo Amaro/Cidade Ademar e Lapa/Pinheiros.

Contato de risco exige atendimento de saúde rapidamente

A raiva é uma zoonose viral que atinge o sistema nervoso central e apresenta letalidade extremamente elevada após o desenvolvimento dos sintomas. A transmissão ocorre principalmente quando a saliva de um mamífero infectado entra no organismo por mordidas, arranhaduras ou contato com mucosas e ferimentos.

Em caso de mordida, arranhadura ou outra exposição potencial à saliva de um animal suspeito, a área atingida deve ser lavada imediatamente com água e sabão. A pessoa deve procurar um serviço de saúde o mais rápido possível, mesmo quando o ferimento parecer pequeno.

A equipe de saúde avaliará fatores como a espécie envolvida, o tipo e a localização da exposição, as circunstâncias do acidente e a possibilidade de acompanhamento do animal. Quando indicada, a profilaxia pós-exposição pode incluir vacina antirrábica e, em determinadas situações, soro ou imunoglobulina antirrábica.

Nos acidentes envolvendo cães ou gatos que podem ser acompanhados, os serviços de saúde podem determinar a observação do animal por dez dias. Qualquer alteração clínica, morte ou desaparecimento durante esse período deve ser comunicada imediatamente para que a conduta adotada para a pessoa exposta seja reavaliada.

O controle alcançado pelo Brasil contra as variantes clássicas mantidas por cães representa uma mudança importante no perfil da raiva no país, mas não equivale à eliminação do vírus. O Ministério da Saúde destaca que variantes silvestres continuam presentes, com os morcegos assumindo papel relevante na epidemiologia atual da doença.

Os registros de 2026 em São Paulo traduzem esse cenário para a rotina dos tutores. A confirmação da doença em um cão não vacinado no interior e a identificação de morcegos infectados em diferentes pontos da capital mostram como os ciclos silvestre e urbano podem se aproximar.

Manter cães e gatos com a vacinação antirrábica atualizada, impedir o contato dos pets com animais silvestres, não manipular morcegos encontrados em situações incomuns e buscar atendimento rapidamente após uma possível exposição continuam entre as principais medidas de prevenção. A redução histórica da raiva urbana foi construída com vacinação e vigilância, e a manutenção desse resultado depende da continuidade dessas ações.

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