Dia Mundial do Gato celebra afeto, resgates e novas histórias

08 de Agosto de 2026

Às vésperas do Dia do Protetor de Animais, fundadoras do Adote um Gatinho relembram resgates, afetos e lições de mais de duas décadas de união.

Há quem diga que gatos são independentes demais. Há quem jure que eles escolhem exatamente onde sentar, quando pedir carinho e até quem terá o privilégio de dividir o travesseiro. Para quem convive com felinos, porém, uma coisa costuma ser consenso: depois que um gato entra na vida de alguém, é difícil imaginar a rotina sem ele.

É esse vínculo que ganha destaque em 8 de agosto, Dia Mundial do Gato. A data se tornou uma oportunidade para celebrar a convivência com os felinos, chamar a atenção para seu bem-estar e lembrar que, por trás de muitas histórias de companheirismo, há também trajetórias de resgate, recuperação e encontros com novas famílias.

No Brasil, onde os gatos conquistaram espaço definitivo dentro dos lares, a celebração também conversa diretamente com o trabalho de pessoas que dedicam tempo e recursos à proteção animal. São voluntários que resgatam, oferecem lar temporário, organizam tratamentos, promovem castrações e procuram famílias preparadas para receber cada animal.

Dos primeiros resgates a uma referência na proteção felina

Entre os nomes que ajudam a contar essa história está a Adote um Gatinho (AUG). Fundada em 2003 por Susan Yamamoto e Juliana Bussab, a organização nasceu de maneira espontânea, depois que as duas universitárias se encontraram durante uma ação para ajudar uma colônia de gatos em um parque de São Paulo.

O que começou com o acolhimento dos animais mais vulneráveis e a criação de um site para divulgar gatos disponíveis para adoção cresceu ao longo dos anos. Mais de duas décadas depois, a Adote um Gatinho se consolidou como uma das principais referências em proteção felina no Brasil, reunindo resgate, tratamento, conscientização, castração e adoção responsável.

A trajetória da ONG também acompanha uma mudança importante na maneira como os gatos são percebidos. A antiga fama de animais distantes ou pouco afetuosos perdeu espaço conforme mais pessoas passaram a descobrir que a relação com um felino é construída por confiança, respeito aos limites e uma forma muito particular de demonstrar carinho.

Para quem já é gateiro, reconhecer esses sinais faz parte da rotina. Para quem nunca viveu com um gato, as histórias de Susan e Juliana ajudam a explicar por que tantos tutores descobrem nos felinos companheiros atentos, inteligentes e capazes de estabelecer vínculos profundos sem abandonar a própria personalidade.

Histórias que mostram o alcance de uma segunda chance

Ao longo dessa caminhada, alguns resgates se tornaram símbolos do trabalho da organização. Há gatos que esperaram anos por uma família, animais com deficiência que precisaram de cuidados específicos e situações em que a equipe teve de encontrar soluções mesmo quando espaço, recursos e experiência eram limitados.

São histórias como a de Malu, que perdeu as duas patas dianteiras após um choque elétrico e passou a utilizar próteses, ou a de Chica, primeira gata paraplégica acompanhada pelas fundadoras. Em outros momentos, o desafio não estava na condição de apenas um animal, mas na necessidade de acolher dezenas de gatos de uma única vez.

Esses casos também mostram que o trabalho de proteção animal não termina no resgate. Recuperar um gato, conhecer seu comportamento e encontrar uma família adequada são etapas de um processo que exige planejamento e responsabilidade. A adoção, nesse contexto, surge como consequência de um trabalho que procura construir encontros duradouros, e não apenas retirar animais das ruas.

Dia do Protetor reforça a importância de quem está nos bastidores

A proximidade entre o Dia Mundial do Gato, em 8 de agosto, e o Dia do Protetor de Animais, lembrado em 10 de agosto, ajuda a colocar em evidência os dois lados dessa relação. Enquanto uma data celebra os felinos, a outra chama a atenção para milhares de pessoas que transformam a preocupação com os animais em ação cotidiana.

Nem todo protetor está ligado a uma grande organização. Muitos atuam de forma independente, administrando resgates, tratamentos veterinários, alimentação e adoções com recursos próprios ou com o apoio de pequenas redes de voluntários. Outros encontram nas ONGs uma estrutura capaz de ampliar esse trabalho e mobilizar mais pessoas.

A experiência da Adote um Gatinho mostra como uma iniciativa que começou de maneira informal pode ganhar escala sem perder o vínculo com histórias individuais. Cada gato acolhido traz necessidades diferentes, e cada adoção exige que o interesse inicial se transforme em compromisso com cuidados que acompanharão o animal por toda a vida.

Também é por isso que ajudar a causa não significa necessariamente adotar. Castrar um animal, colaborar com uma organização, apoiar um protetor independente, divulgar uma adoção responsável ou oferecer ajuda diante de um gato em situação de risco são maneiras de participar dessa rede.

Neste Dia Mundial do Gato, o PetBR conversou com Susan Yamamoto e Juliana Bussab sobre o início da Adote um Gatinho, os resgates que marcaram mais de duas décadas de trabalho e aquilo que os felinos ensinam a quem se permite conhecê-los. A seguir, elas contam essa história em suas próprias palavras.

Para conhecer mais sobre o trabalho da Adote um Gatinho, acesse www.adoteumgatinho.org.br ou acompanhe a ONG no Instagram, @adoteumgatinho.

Além das histórias de resgate, adoção e proteção animal, a saúde dos felinos também merece atenção. Mais adiante nesta reportagem, o PetBR conversa com uma médica-veterinária parceira da Adote um Gatinho sobre as doenças que podem afetar os gatos, os sinais de alerta e os cuidados importantes para preservar a saúde desses animais.

Entrevista com Susan Yamamoto e Juliana Bussab

1. Todo gateiro lembra exatamente como começou essa paixão. E com vocês, como foi? Como nasceu o Adote um Gatinho e o desejo de transformar a vida de tantos gatinhos?

Susan: Não tínhamos a pretensão de criar uma ONG. Simplesmente aconteceu.

Na época, eu e a Juliana participávamos de uma lista de discussão no Yahoo, quando as redes sociais ainda nem existiam. Um dia, uma participante da lista, que hoje é nossa amiga, procurou voluntários para ajudar a capturar os gatos de um parque e levá-los para castração.

Como eu morava perto e estava de férias, resolvi ajudar. A Ju também. Foi assim que nos conhecemos, no parque.

Com o tempo, começou a ficar cada vez mais difícil devolver para o parque os gatos mais vulneráveis, como filhotes, idosos e doentes. Então, passamos a levá-los para as nossas casas. À medida que o número de gatos aumentava, percebemos que precisávamos encontrar famílias para eles. Foi assim que nasceu o Adote um Gatinho, inicialmente como um site criado por nós para divulgar os animais para adoção.

Aos poucos, as pessoas começaram a conhecer o nosso trabalho, confiar nele e nos ajudar. As adoções cresceram, o apoio aumentou e passamos a acolher gatos vindos de outros lugares. Quando percebemos, a ONG já existia na prática. Apesar de todas as dificuldades do começo, só faltava oficializá-la.

Juliana: Eu sempre tive gatos, eles sempre fizeram parte da minha vida. Com o início da internet, entrei em grupos de resgate e foi ali que conheci a história da colônia de gatos desse parque. Durante o trabalho de captura, esterilização e devolução (CED), conheci a Susan.

Naquela época, percebemos que muitos daqueles gatos tinham condições de viver em uma família e começamos a oferecer lar temporário. Como a Susan já trabalhava com internet, demos uma cara nova aos resgates. Não era a imagem da "louca dos gatos", mas duas universitárias escrevendo em primeira pessoa e criando identificação com as pessoas. Isso ajudou muita gente a se aproximar da causa.

2. Depois de tantos anos de atuação, milhares de gatos já encontraram um novo lar através da ONG. Existe alguma história de resgate ou adoção que até hoje emociona a equipe e represente bem a missão da Adote um Gatinho?

Susan: É muito difícil escolher apenas uma história. Foram muitas situações diferentes, difíceis e emocionantes ao longo desses anos.

Sempre nos emocionamos com a adoção de gatinhos que esperaram muito tempo por uma família, às vezes anos, ou daqueles que têm alguma deficiência e costumam enfrentar ainda mais dificuldades para encontrar um lar.

Uma história mais recente é a da Malu, uma gatinha que sofreu um choque elétrico e perdeu as duas patinhas da frente. Ela recebeu próteses, passou por um processo de adaptação e aprendeu a viver muito bem com suas novas patinhas. Hoje está feliz, cercada de amor, na casa da sua família. Histórias como a dela nos lembram que sempre vale a pena acreditar em uma segunda chance.

Juliana: São centenas de gatos com histórias lindas. Inclusive, o livro Gato Sortudo reúne dez das que mais nos marcaram. E mesmo depois do lançamento do livro, muitas outras aconteceram.

A que mais me emocionou foi a Chica, nossa primeira gata paraplégica. Na época, não sabíamos como seria a rotina de cuidados e manejo. Aprendemos tudo com ela, como quem aprende a cuidar de um bebê. Foi extremamente gratificante vê-la feliz e cheia de vontade de viver, mesmo com todas as dificuldades.

3. Confesso que acompanho o trabalho da Adote um Gatinho há muitos anos, e uma das histórias que mais me marcou foi a do Peixe, que foi o "jornalista" da ONG antes de encontrar sua família. Imagino que, para vocês, seja quase impossível escolher apenas uma. Entre tantos resgates e adoções, existe alguma história que represente a essência da Adote um Gatinho e que até hoje emocione a equipe?

Susan: Para mim, o primeiro grande resgate da ONG foi o mais marcante. Acolhemos 44 gatos de uma só vez depois que uma protetora, sem perspectivas de conseguir ajuda, acabou abandonando os animais em uma fábrica.

Na época, nem tínhamos um espaço para recebê-los. Mesmo assim, alugamos dois quartinhos que não tinham nada além de uma pia e saímos para resgatar um por um.

Foi um desafio enorme, mas também um momento que mostrou que, de alguma forma, sempre encontraríamos um jeito de ajudar os gatos que precisavam de nós. Muitas pessoas se sensibilizaram com a situação, apareceram para ajudar e, no fim, deu tudo certo. Foi quando percebemos que não estávamos sozinhas e que o trabalho da ONG podia realmente dar certo.

Juliana: Concordo com a Susan. Esse primeiro grande resgate foi inesquecível. Não tínhamos experiência nenhuma e tudo indicava que poderia dar errado.

Recebemos a notícia de que uma protetora havia sido despejada e cerca de 45 gatos tinham sido abandonados no Ipiranga. Sentimos que precisávamos agir. Saímos procurando os gatos à noite, com lanternas, e os levamos para um quarto e cozinha que alugamos em Osasco, porque era o que podíamos pagar.

Não existia quarentena, não tínhamos parcerias e, com a ajuda de uma veterinária, fizemos uma medicação padrão para todos. Não perdemos nenhum gato. Todos foram adotados e viveram muitos anos. Foi quando percebemos que era possível fazer a diferença, mesmo com poucos recursos.

4. Ainda existe quem diga que gato é distante, interesseiro ou pouco carinhoso. Se vocês pudessem apresentar os felinos para alguém que nunca teve um gato, como convenceriam essa pessoa de que vale a pena viver essa experiência? E o que um gato costuma ensinar aos seus tutores?

Susan: São animais amorosos, inteligentes, limpos e companheiros. E, convenhamos, capricharam no design. Que bicho lindo!

Os gatos ensinam muito sobre amor e respeito. Cada um tem seu próprio tempo e sua personalidade, e conviver com eles nos faz entender a importância de respeitar os limites e a individualidade do outro.

A confiança é construída aos poucos e, quando um gato escolhe estar perto de você, é porque se sente seguro, respeitado e amado. Essa, para mim, é uma das maiores lições que eles nos dão.

Juliana: Acho que a fama dos gatos mudou muito. A própria verticalização das cidades fez com que mais pessoas descobrissem como eles se adaptam bem aos apartamentos.

Quem adota um gato normalmente acaba adotando dois, três... Eles conquistam o coração das pessoas.

5. Para encerrar, neste Dia Mundial do Gato, e às vésperas do Dia do Protetor de Animais, que mensagem vocês gostariam de deixar para quem já é gateiro, para quem sonha em adotar seu primeiro gato e para todos que acreditam na proteção animal?

Susan: Adotem. Tenham gatos. É uma experiência maravilhosa poder cuidar de um ser tão especial e descobrir o quanto eles transformam a nossa vida.

E, se algum gatinho cruzar o seu caminho na rua, não ignore. Não é preciso ter uma ONG para fazer a diferença. Castrar, denunciar maus-tratos, buscar ajuda ou encontrar um lar para um animal hoje é muito mais possível graças ao alcance das redes sociais. Cada atitude, por menor que pareça, pode mudar uma vida.

Juliana: Ter um gato em casa é um privilégio. Eles sabem reconhecer o nosso estado de espírito e muitas vezes são um verdadeiro suporte emocional para toda a família.

Adotem, adotem sempre. E, se não puderem adotar, ajudem de outras formas: apoiem uma ONG, um protetor independente ou resgatem um gatinho que cruzar o seu caminho. Sempre há uma maneira de proteger quem mais precisa.

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